quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

complete a frase

dias livres são dádivas divinas na melhor das intensões, vou dizer, viu. uso eles pra limpar a casa, ouvir um vinil, e principalmente, andar à toa pela rua: é a melhor coisa a se fazer num dia de ócio, faça chuva ou faça sol, sem dúvida a melhor coisa. se tiver bastante calma e com a cabeça livre dos problemas, é bem capaz que você descubra até paz no meio desses caóticos dias corridos; arrisco a dizer que se não tiver nada mesmo pra fazer e resolver prestar atenção nisso tudo, você acaba descobrindo um padrão nesse caos todo da cidade. mas isso já é exigir demais pra quem tá tentando relaxar, eu compreendo, nem faz sentido pensar nisso... enfim, eu estava andando pelo centro, fuçando a imensidão de sebos entre a praça da Sé e a Republica, e saia na rua de uma loja pra outra com a cabeça completamente livre. entremeio esses caminhos encontrei algo pra fazer: resolvi que minha principal função seria ouvir a conversa de quem cruzasse comigo e completaria a estoria da maneira que eu quisesse. de fato é uma brincadeira que provavelmente todo mundo faz, ou já fez algum dia: você ouve uma frase qualquer e completa ela se baseando nas características do indivíduo que a soltou. simplesmente a completa do jeito que você quer, colocando na boca dos outros as palavras que você tá afim de ouvir. geralmente as que eu completo sempre tem um tom sarcastico: é mais divertido pensar que a pessoa conclui um linha de pensamento com um absurdo qualquer, com algo inesperado, ou com um comentario surreal. fica como um dialogo entre dois personagens do Monty Python, ou algo parecido com isso. afinal, acho que a graça desse passatempo fica justamente na condição de ser escroto ao encarnar os personagem alheio. acho que você sacou a idéia, né.

pois bem, pelo viaduto do Chá eu me empenhei ferrenho nessa função. passa uma garota com a voz meio alterada perguntando ao suposto namorado sobre o recado que ela encontrou de tal pessoa num site de relacionamento. não ouço a resposta dele, mas penso numa adequada pro tipo - um sujeito robusto, com o cabelo preso num mini coque, amarrado atras da cabeça, com aquela pinta de latin lover. as palavras que coloco na boca dele soam num tom complascente: "ahhh, aquele recado de fulana! sim, marquei de trepar com ela depois de amanhã, quando você estiver no trabalho. acho que não vai atrapalhar nossos planos de ir jantar na casa da sua mãe, né? senão eu remarco a trepada pra outro dia, sem problemas meu amor!!..."

meu segundo par de vitimas são duas velhinhas que conversam provavelmente sobre a nora de uma delas, aparentemente bem resolvida sexualmente com o filho/marido. "mulherzinha baixa, cada lingerie indiscreta que eu encontro no varal dela... sabe-se lá o que deve fazer quando meu filho está trabalhando, longe de casa", rosnava inconformada a velha decrépta. ahh! como eu gostaria de encarnar na outra velha, a ouvinte, só pra dizer "que bom pra ela, que deve dar gostoso pro seu filho, que por sinal é um imbecil e nem merecia aquilo tudo! se está fazendo a marmita pra fora é porque não tá recebendo a atenção devida do banana do seu garoto, provavelmente por culpa sua que, frustrada pelo seu casamento mal-sucedido, descontou todo seu inconformismo criando um menino bloqueado socialmente. nada de mais, tá de parabéns..."

entre mais algumas figuras comumente incomuns, cheguei em frente o Teatro Municipal, onde rola uma concentração de pastores cristãos, desses mesmos que desferem ferozmente suas profecias e pragas a favor da devoção doentia e em defesa da moral e dos bons costumes, mas que bebe e bate no filho gay quando chega em casa e blá-blá-blá, você conhece essas estórias. enfim, passo pelo cidadão e ele me solta a pérola do dia: "e somente quando jesus chegou à agonia final que o centurião acreditou nele ser realmente o filho de deus..." bom, nem é preciso dizer que fiquei imaginando a cena: jesus sendo torturado, a coroa de espinhos, toda aquela via crucis e tal e coisa, o cara é pregado na cruz e pendurado nu na frente da multidão, um cara dá vinagre quando ele pede agua, e só pra tirar uma ultima ondinha perfura o pulmão do tal salvador, que apaga em sofrimento; o centurião, com toda a indiferença pela situação olha pro cara desfalecido pendurado na cruz e diz "poh, acho que era verdade. o cara era mesmo o filho de deus... que coisa! masss, fazer o quê?... Isaac! menino, vai buscar um cantil dágua lá em casa! e se tiver donut no balcão do seo Efraim, me traz dois!! só não traz de creme holandês! você sabe que eu odeio creme holandês!!"...

e foi assim que o creme holandês foi banido da tradição cristã, digo... não! eu não tava falando disso! ahhh sim!, era sobre a brincadeira de completar frases, mil perdões. de qualquer forma, é divertido praticar esse exercicio de criatividade. eu diria até que chega a ser uma terapia ocupacional (de tempo jogado fora, mas é.) finalmente passando pelo largo do arouche, um ultimo exercicio zen de degradação da figura comum: dois jovens bem vestidos, pomposos, terno e gravata, yuppies por descendencia e metrosexuais por consequencia. um deles comenta com o outro: "mas ele nem tinha cara de maconheiro..."

muito bem, me ocorreu algo agora: essa ultima eu deixo pra vocês exercitarem. façam o teste, avaliem a frase, os indivíduos: as possibilidades são ilimitadas e a diversão é garantida.

14 Cafezinhos:

suellen nara disse...

Faço isso o tempo todo.
Se alguém passase um dia dentro da minha cabeça, sairia tontinho. Ainda bem que eu nem abro a boca.

Natacia Araújo disse...

haha Quanto aos dois jovens nem me atreveria a recriar qualquer coisa, deixo isso a cargo do Wash que está virando especialista.
ê mente fértil! rs Já vi que teu tempo vago é tb dedicado a imaginação,criação e criticação (palavra inventada? rs).
Bom texto parceiro!

Sheron disse...

Aposto que os dois caras de terno eram traficantes- representantes do pó da favela do Rio e apagaram um velhôte cego que estava devendo mais de 15.000,00

"mas ele nem tinha cara de maconheiro" foi o que disseram os netinhos assim que souberam que perderam a casa como escambo pros bandidões de terno.

kkkk boa sacada wash!

Marisete Zanon disse...

Claro que não tinha cara de maconheiro! O pai dele limpava o restinho do pó que ficava pelas beiras das narinas dele.
(que tristeza minha imaginação...)
esmaques!

Edina Regina Araújo disse...

"Mas ele nem tinha cara de maconheiro..."Por isso não fui com a cara dele ,disse o pai político a sua filha cantora hahahhahahaa...genro bom é genro que leva a vida na boa ,sem interjeições ,avaliações dos ventos que vem lá da bahia ,da rede ,da menina,da vida.... E não faz mal não...Claro que depois dos cinquenta é bom parar....sabe na vida ,menina,rede....
Beijos Wash!!!!

Franklin Catan disse...

Velho esse lugar aqui é irado, parabéns para as pessoas que escreve aqui, gostei acho que vou me alimentar desses textos fora do sério..
Um grande abraço a todos!

Mariah disse...

eu tenho mania (que aliás, confesso que as veze me incomoda) que deduzir a história da vida dos outros...
outro dia chegava eu no shopping e vi um carrão (tipo essas pickups pretas gigantes) parada toda torta numa vaga...já fui logo mandando!
- puta vadia, devia estar dando para o personal training na hora do almoço e chegou atrasada na aula de "pillats" da academia. ainda por cima parou todo torto o carrão que o "corno" do marido, publicitário da multinacional, deu para ela no nascimento dos gêmeos. ai que sofrimento que foi o tratamento para engravidar.

juro, que tudo isso passou pela minha cabeça em milésimos de segundo.

a mente do ser humano é doente.

Tiburciana disse...

Caracolis sempre achei que tinha problemas por ver as pessoas e ficar criando a vida delas na minha cabeça.
Alias tenho uma amiga que tenho serios problemas por fazer isso
Agroa vejo que sou bem normal
Vou ate encaminhar o link desse post a minha amiga
huahuaahhhhaaaa
bjos

Sakana-san disse...

Adoro inventar diálogos e me intrometer na conversa dos outros, principalmente quando fulano fala ao celular. Isso faz parte do ócio criativo.

[M]. Atahualpa disse...

Yeah!
Como toda zoação tem que ser! ^^

Ferdi disse...

HAHAHAHA, eu adoro fazer isso.. às vezes ouço o que alguém fala e respondo eu pra pessoa que está comigo que, se me conheceu a pouco tempo fica confusa, mas depois de um tempinho se diverte também.
Ou aquela coisa de dublagem.. lembro da minha primeira dublagem.. de tênis na praia, com minhas amigas que também usavam tênis na praia, braquelas, esquálidas, fugindo do sol, de tênis, uma delas vê um casal normal e começa, nunca mais consegui parar.

Enfim: "Mas ele nem tinha cara de maconheiro.. só estava fumando maconha aquele dia, compreende? Não devia ter achado o fornecedor de cocaína porque, né? Duvido que um menino com aquela carinha fosse cafona suficiente pra ficar nessa de maconha, coisa mais out".

Erica Ferro disse...

Essa brincadeira é legal! =x

jefhcardoso disse...

Olá! Com licença; sou Jeferson, um homem comum que gosta de escrever. Quando tenho um tempo saio em visitas a blogs, seguindo sempre a seta que aparece no auto da pagina inicial (próximo blog>>). Posso afirmar que é uma experiência “deliciante”.
Quando encontro um blog bem legal como o seu eu posto um comentário e deixo o convite para que conheçam o http://jefhcardoso.blogspot.com . Recomendo em especial os poemas e os contos de minha sessão em preto e branco, que data de novembro de 2009.

Parabéns por seu blog e desculpe a intromissão.
Abraço: Jefhcardoso>>de blog em blog.

Jorge Oliveira disse...

wawa o cara era gay e matou o que nem tinha cara de maconheiro pra defender a bicha irmã de terno ao lado.
viajei agora. wawawa